segunda-feira, 28 de setembro de 2026
MANCHETES

Cidades de fronteira preservam tradições que atravessam gerações no Rio Grande do Sul

Nas cidades de fronteira do Rio Grande do Sul, a cultura se formou a partir do encontro entre brasileiros, uruguaios e argentinos. Tradições campeiras, festas populares, culinária, música e memória histórica seguem presentes no cotidiano regional.

Nas cidades de fronteira do Rio Grande do Sul, a linha que separa o Brasil do Uruguai e da Argentina não impede a circulação de costumes. Ao contrário, a proximidade entre os países ajudou a formar uma cultura própria, marcada pelo convívio entre diferentes sotaques, hábitos, ritmos e modos de vida.

Na região, tradições ligadas ao campo convivem com festas populares, manifestações tradicionalistas, culinária de influência platina e referências históricas que remontam às Missões Jesuíticas, às disputas territoriais e à formação do Pampa. Em muitos municípios, esses elementos permanecem presentes tanto nas celebrações públicas quanto na rotina das famílias.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística considera como faixa de fronteira a área de até 150 quilômetros paralela à linha divisória terrestre do país. No Rio Grande do Sul, municípios como Aceguá, Barra do Quaraí, Chuí, Itaqui, Jaguarão, Porto Mauá, Porto Xavier, Quaraí, Sant’Ana do Livramento, São Borja e Uruguaiana estão entre as cidades classificadas como gêmeas ou diretamente relacionadas à fronteira. (ibge.gov.br)

Uma cultura formada pelo encontro

A identidade cultural da fronteira gaúcha não surgiu de uma única origem. Ela resulta da combinação entre populações indígenas, presença jesuítica, colonização ibérica, atividades pecuárias e sucessivas disputas pela ocupação do território. Ao longo do tempo, o contato com os países vizinhos consolidou hábitos compartilhados, especialmente nas áreas próximas aos rios e às passagens internacionais.

O Pampa é um dos principais elementos desse ambiente cultural. A paisagem de campos abertos favoreceu a criação de bovinos e ovinos, o uso do cavalo e a organização de estâncias. Essas atividades influenciaram o vestuário, a alimentação, a música e os modos de sociabilidade que hoje são associados à figura do gaúcho.

O governo do Rio Grande do Sul descreve a Região Fronteira como parte de uma paisagem cultural ligada às estâncias, às provas de destreza e manejo com animais, às manifestações artísticas e à gastronomia baseada principalmente em carnes bovina e ovina. O chimarrão e o mate amargo também aparecem como símbolos recorrentes dessa identidade regional. (turismo.rs.gov.br)

Sant’Ana do Livramento e Rivera: uma fronteira integrada

Um dos exemplos mais conhecidos dessa convivência está em Sant’Ana do Livramento, na fronteira com Rivera, no Uruguai. As duas cidades são separadas por uma avenida, mas mantêm intensa circulação de moradores, trabalhadores, comerciantes e visitantes.

A proximidade influencia o idioma ouvido nas ruas, as relações familiares, o comércio e as celebrações. É comum que moradores tenham vínculos dos dois lados da fronteira e transitem entre referências culturais brasileiras e uruguaias. A chamada “Fronteira da Paz”, como Sant’Ana do Livramento é conhecida oficialmente, tornou-se uma expressão associada à integração entre as comunidades. (santanadolivramento.rs.gov.br)

As tradições campeiras permanecem visíveis nos centros de tradições gaúchas, nos piquetes, nos rodeios, nas cavalgadas e nos festejos de setembro. A prefeitura do município informou que o desfile farroupilha de 20 de setembro de 2026 reuniu 4.023 participantes e destacou a participação de famílias, entidades tradicionalistas e cavalarianos. O dado mostra a dimensão que essas manifestações ainda ocupam na vida comunitária local. (santanadolivramento.rs.gov.br)

Além dos desfiles, a preservação cultural ocorre por meio da música, da dança, da culinária e da transmissão de conhecimentos entre gerações. Em eventos religiosos e comunitários, também aparecem manifestações que aproximam brasileiros e uruguaios, reforçando o caráter compartilhado da fronteira.

São Borja reúne memória missioneira e identidade política

Na margem brasileira do rio Uruguai, São Borja preserva uma trajetória marcada pela presença jesuítica e pela história política do país. O município foi fundado a partir da redução de San Francisco de Borja, estabelecida em 1682, e é reconhecido como parte do território dos Sete Povos das Missões.

A herança missioneira se soma à memória de acontecimentos militares e políticos. A cidade esteve ligada a episódios da Guerra da Tríplice Aliança e, em período mais recente, tornou-se conhecida como terra natal de Getúlio Vargas e João Goulart. Esses diferentes períodos formam uma paisagem histórica que combina patrimônio, relatos familiares, monumentos e instituições culturais. (portal.saoborja.rs.gov.br)

Em São Borja, a fronteira com a Argentina não é apenas uma referência geográfica. Ela também influencia as relações econômicas e culturais do município. O rio Uruguai, as rotas de circulação e a proximidade com cidades argentinas ajudam a manter uma dinâmica regional em que a história dos dois países se encontra.

Uruguaiana combina tradição campeira e cultura popular

Uruguaiana ocupa posição estratégica na ligação entre o Brasil e a Argentina. A cidade abriga um dos principais corredores rodoviários de comércio internacional do país e mantém atividades relacionadas à pecuária, à agricultura e aos serviços de fronteira. Ao mesmo tempo, apresenta uma agenda cultural marcada por eventos de grande participação popular.

O Carnaval de Uruguaiana é uma das manifestações mais conhecidas do município. Os desfiles de escolas de samba criaram uma tradição própria no calendário regional e mostram que a cultura fronteiriça não se resume aos símbolos associados ao campo. Na cidade, expressões urbanas, música popular e referências platinas convivem com o tradicionalismo gaúcho.

Outro marco cultural é a Califórnia da Canção Nativa, festival ligado à música regional e à valorização de temas do cotidiano, da paisagem e da identidade do Sul. O município também destaca o turismo rural, a gastronomia influenciada pelas tradições brasileira, argentina e uruguaia e os passeios por locais históricos. (uruguaiana.rs.gov.br)

Essa combinação ajuda a explicar por que Uruguaiana ocupa lugar relevante na rota cultural da fronteira. A cidade preserva referências tradicionais, mas também incorpora manifestações contemporâneas que ampliam o significado de identidade regional.

O campo, o cavalo e a gastronomia

Em boa parte da fronteira gaúcha, o modo de vida rural continua sendo uma fonte importante de referências culturais. A criação de gado, a produção de arroz e a criação de ovinos influenciam a economia e também a alimentação, as festas e as formas de representação da vida no Pampa.

O churrasco, o assado de carne ovina, o arroz, o mate e preparações de influência uruguaia e argentina aparecem em diferentes municípios. A gastronomia não é apenas uma atração turística: ela também está presente em encontros familiares, festas comunitárias e eventos de entidades tradicionalistas.

O cavalo mantém papel simbólico e prático. Cavalgadas, rodeios e provas de manejo reúnem participantes de diferentes idades e reforçam a transmissão de conhecimentos sobre montaria, trajes, música e comportamento no campo. Em muitas comunidades, os Centros de Tradições Gaúchas funcionam como espaços de ensino informal, convivência e preservação cultural.

O artesanato regional também reflete essa formação. Peças ligadas ao trabalho campeiro, ao couro, à lã e à indumentária tradicional são produzidas e comercializadas em municípios da Campanha e da Fronteira Oeste. O governo estadual identifica nessas áreas uma formação histórico-cultural fortemente influenciada pelas atividades rurais e pela presença das cidades gêmeas. (artesanatogaucho.rs.gov.br)

Costumes que atravessam a linha internacional

Na fronteira, a separação entre os países é percebida nas regras administrativas, nos documentos e na organização política, mas não elimina a circulação cultural. Palavras do espanhol e do português aparecem misturadas na comunicação cotidiana. Receitas, músicas e práticas religiosas também ultrapassam a linha internacional.

Esse intercâmbio pode ser observado em festas, feiras, eventos esportivos e atividades culturais realizadas em parceria. Há celebrações que reúnem comunidades dos dois lados e transformam a fronteira em espaço de convivência, em vez de apenas limite territorial.

O Atlas Socioeconômico do Rio Grande do Sul registra a existência de ligações internacionais relacionadas a lazer e cultura em diferentes municípios gaúchos. Entre os exemplos citados estão eventos frequentados por uruguaios e atividades culturais que atraem participantes dos países vizinhos. (atlassocioeconomico.rs.gov.br)

Preservação depende da participação comunitária

A continuidade dessas tradições depende menos de monumentos isolados do que da participação cotidiana da população. Festas, grupos de dança, bandas, corais, CTGs, museus, associações e escolas têm papel central na transmissão de práticas culturais.

Também existem desafios. A mudança nos hábitos de consumo, o deslocamento de jovens para centros maiores, a redução de atividades rurais em algumas áreas e a necessidade de profissionalizar eventos e espaços culturais podem dificultar a preservação de manifestações tradicionais.

Por isso, a valorização da cultura fronteiriça exige políticas públicas, registro da memória local e incentivo à participação de novas gerações. A tradição não permanece viva apenas por ser antiga. Ela precisa ser praticada, ensinada, atualizada e reconhecida como parte da história de cada comunidade.

Nas cidades de fronteira do Rio Grande do Sul, essa preservação ocorre em meio ao contato permanente com o Uruguai e a Argentina. O resultado é uma identidade regional marcada pela mistura, pela mobilidade e pela capacidade de reunir diferentes referências. Entre o campo e a cidade, a memória missioneira e a cultura popular, essas comunidades mantêm costumes que ajudam a explicar a diversidade do estado.