As comunidades quilombolas no Rio Grande do Sul preservam suas tradições por meio de práticas transmitidas entre gerações, da defesa de seus territórios e da valorização de uma memória construída ao longo de diferentes períodos da história. Em áreas rurais e urbanas, esses grupos mantêm formas próprias de organização, religiosidade, produção, celebração e relacionamento com o ambiente.
A preservação cultural não se limita a festas ou manifestações artísticas. Ela também está presente no cultivo de alimentos, nas técnicas de artesanato, nas narrativas familiares, nas práticas de cura, na música, na dança, na relação com a terra e no reconhecimento dos antepassados que deram origem às comunidades.
O Rio Grande do Sul possui comunidades quilombolas distribuídas por várias regiões, com maior presença histórica na Metade Sul, na Campanha, na Região Metropolitana e em áreas do litoral e do norte do estado. O Censo Demográfico 2022 identificou 203 localidades quilombolas no território gaúcho. No mesmo levantamento, foram registrados 27 territórios quilombolas reconhecidos, distribuídos por 31 municípios, com área total de 4.908,6 quilômetros quadrados. (atlassocioeconomico.rs.gov.br)
Uma identidade ligada à história e ao território
As comunidades remanescentes de quilombos são definidas juridicamente a partir da autoatribuição, de uma trajetória histórica própria, de relações territoriais específicas e da ancestralidade negra associada à resistência à opressão histórica. A definição está prevista no Decreto nº 4.887, de 20 de novembro de 2003, que regulamentou dispositivos constitucionais relacionados aos direitos quilombolas. (gov.br)
Essa característica ajuda a compreender por que território e cultura aparecem frequentemente associados nas reivindicações quilombolas. A terra não é apenas o espaço onde as famílias vivem. Ela também reúne lugares de memória, áreas de cultivo, caminhos, fontes de água, cemitérios, espaços de culto e locais onde ocorrem celebrações coletivas.
Por isso, a regularização fundiária é considerada uma das medidas relevantes para a continuidade das tradições. O processo pode envolver identificação e delimitação do território, publicação de relatório técnico, reconhecimento oficial e titulação coletiva. Segundo o Atlas Socioeconômico do Rio Grande do Sul, a titulação ocorre de forma coletiva, em nome da associação legalmente constituída pela comunidade, com caráter imprescritível e pró-indiviso. (atlassocioeconomico.rs.gov.br)
Saberes transmitidos entre gerações
O conhecimento quilombola é repassado principalmente pela convivência entre familiares e moradores mais velhos. Crianças e jovens aprendem observando o trabalho cotidiano, participando de festas, ouvindo relatos e acompanhando atividades de plantio, colheita, criação de animais, preparo de alimentos e produção artesanal.
Um diagnóstico das comunidades quilombolas certificadas no Rio Grande do Sul registrou a presença de saberes tradicionais em 72% dos grupos pesquisados. Entre as práticas citadas estão conhecimentos agrícolas associados às fases da Lua, observação dos ventos, benzeduras, doma de animais, esquila e técnicas de artesanato com lã, tecido, couro e fibras. (sdr.rs.gov.br)
Esses conhecimentos cumprem funções práticas e simbólicas. A escolha do momento do plantio, o uso de sementes, o cuidado com os animais e a preparação de alimentos fazem parte de uma compreensão de mundo na qual natureza, espiritualidade, trabalho e vida comunitária estão relacionados.
As benzeduras, por exemplo, aparecem em relatos como práticas voltadas à proteção das lavouras, ao enfrentamento de doenças e à tentativa de controlar fenômenos climáticos. O uso de rezas, gestos, objetos e elementos da natureza compõe um repertório que costuma ser transmitido oralmente, muitas vezes dentro das próprias famílias.
Festas, música e religiosidade
As celebrações religiosas e comunitárias ocupam lugar central na preservação das tradições quilombolas do estado. Em diferentes localidades, festas de santos, procissões, promessas, danças e encontros coletivos combinam elementos do catolicismo popular com referências de matriz africana e memórias específicas de cada comunidade.
Entre as manifestações conhecidas no Rio Grande do Sul estão o Quicumbi, os Maçambiques e outras formas de dança e música associadas a irmandades, festejos e rituais de promessa. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional já apoiou pesquisa e documentação sobre os saberes e práticas músico-rituais do Ensaio de Promessa de Quicumbi entre quilombolas gaúchos, com o objetivo de contribuir para a transmissão intergeracional desses conhecimentos. (gov.br)
Em Rio Pardo, a comunidade conhecida como Rincão dos Negros ou Quilombo da Bela Cruz mantém o Quicumbi como uma de suas expressões culturais. A manifestação é apresentada em festas locais e reúne música, dança, instrumentos e referências religiosas ligadas à história do grupo. (riopardo.rs.gov.br)
Mais do que apresentações públicas, essas práticas funcionam como formas de pertencimento. Os participantes reconhecem nelas a presença de antepassados, a continuidade de vínculos familiares e a afirmação de uma identidade que durante muito tempo foi pouco registrada pelos relatos oficiais sobre a formação do estado.
Artesanato, agricultura e alimentação
A produção artesanal também contribui para preservar a cultura quilombola e gerar renda para as famílias. Peças feitas com lã, tecido, couro, fibras e outros materiais podem carregar técnicas aprendidas com parentes, referências do território e elementos associados ao cotidiano das comunidades.
O artesanato não deve ser entendido apenas como produto para venda. Em muitos casos, ele reúne conhecimentos sobre materiais, ferramentas, acabamento, formas de uso e significados simbólicos. A participação de comunidades quilombolas em feiras e espaços de agricultura familiar amplia a visibilidade desses saberes e cria oportunidades de comercialização direta.
Na produção de alimentos, o cultivo diversificado aparece como uma estratégia de subsistência e de manutenção de hábitos alimentares. Feijão, amendoim, abóbora, mandioca e batata estão entre as espécies mencionadas em materiais sobre comunidades quilombolas rurais do Rio Grande do Sul. A preservação das sementes e das formas tradicionais de cultivo contribui para a autonomia das famílias e para a continuidade de práticas agrícolas locais. (sdr.rs.gov.br)
Em 2026, a participação de representantes quilombolas na Expointer incluiu a apresentação de artesanato, saberes e práticas tradicionais no Pavilhão da Agricultura Familiar. A programação também abriu espaço para debates sobre produção, cultura, educação, saúde, permanência no campo e reconhecimento das especificidades dos territórios. (expointer.rs.gov.br)
Memória oral e novas formas de registro
Grande parte da história quilombola foi preservada por meio da oralidade. Relatos de moradores mais velhos, nomes de famílias, histórias de deslocamento, lembranças de conflitos, experiências de trabalho e narrativas sobre antigos moradores ajudam a reconstruir a formação de cada comunidade.
Nos últimos anos, projetos de história oral, inventários participativos, exposições e pontos de memória passaram a apoiar esse processo. No Quilombo Lemos, em Porto Alegre, um coletivo de memória foi criado para reunir acervos históricos e referências da comunidade. A iniciativa contou com a participação de pesquisadores, organizações quilombolas e instituições ligadas à museologia. (cadastro.museus.gov.br)
Esse tipo de registro permite que as próprias comunidades definam o que deve ser preservado e como suas histórias serão contadas. Fotografias, documentos, objetos, receitas, canções, depoimentos e mapas afetivos podem formar um acervo coletivo, utilizado em atividades educativas e na defesa do reconhecimento territorial.
A documentação, no entanto, não substitui a transmissão cotidiana. Uma tradição permanece viva quando continua sendo praticada, ensinada e adaptada pelas novas gerações. O registro pode ajudar a proteger a memória, mas a preservação depende também de condições materiais para que as famílias permaneçam nos territórios e mantenham suas formas de vida.
Desafios para a continuidade das tradições
A preservação cultural quilombola enfrenta obstáculos relacionados à insegurança territorial, à dificuldade de acesso a políticas públicas, à saída de jovens, à precariedade de serviços e ao racismo. Quando uma comunidade perde áreas de plantio, espaços de encontro ou locais de culto, também pode perder parte das condições necessárias para reproduzir seus conhecimentos.
O Censo 2022 mostrou que a maior parte da população quilombola do Rio Grande do Sul vive fora de territórios quilombolas reconhecidos. Segundo dados reunidos pelo governo estadual, 85,1% dos quilombolas gaúchos estavam fora desses territórios, enquanto 14,9% residiam em áreas reconhecidas. O dado demonstra que a preservação da cultura não depende apenas da existência de uma área oficialmente delimitada, embora o território continue sendo uma dimensão fundamental para muitas comunidades. (www3.estado.rs.gov.br)
Outro desafio é evitar que as tradições sejam tratadas como peças folclóricas isoladas do cotidiano. A cultura quilombola não se resume a uma apresentação de dança ou a um produto artesanal exposto em uma feira. Ela inclui relações familiares, decisões coletivas, crenças, trabalho, alimentação, educação e formas de interpretar o ambiente.
Por isso, políticas de preservação precisam envolver as comunidades desde o planejamento. A certificação pela Fundação Cultural Palmares reconhece a autodefinição coletiva e pode facilitar o acesso a políticas públicas, assistência técnica e apoio em situações de conflito e licenciamento ambiental. O procedimento considera documentos como ata de autodeclaração, relato histórico e requerimento de certificação. (gov.br)
Juventude e continuidade cultural
A participação dos jovens é decisiva para que os saberes quilombolas continuem vivos. Em muitas comunidades, a transmissão ocorre por meio de escolas, associações, grupos culturais, oficinas, encontros regionais e atividades de comunicação comunitária.
O desafio é conciliar a permanência dos jovens nos territórios com a necessidade de estudo, trabalho e acesso a oportunidades. Quando a juventude se afasta por falta de alternativas, a comunidade pode enfrentar dificuldades para manter festas, roças, grupos de dança, produção artesanal e espaços de decisão.
Ao mesmo tempo, novas tecnologias podem ampliar a circulação da memória quilombola. Vídeos, podcasts, fotografias digitais e redes sociais permitem registrar depoimentos e divulgar atividades, desde que o controle sobre o conteúdo e sobre a exposição das pessoas permaneça com as próprias comunidades.
Encontros regionais recentes, como a Ciranda de Akoma, realizada em Formigueiro em agosto de 2026, reuniram representantes quilombolas, pesquisadores e agentes culturais para fortalecer a memória, a ancestralidade e a troca de saberes entre diferentes territórios. A iniciativa mostra que a preservação também ocorre por meio da articulação entre comunidades. (formigueiro.rs.gov.br)
Preservar é garantir condições de existência
A experiência das comunidades quilombolas no Rio Grande do Sul demonstra que preservar tradições envolve muito mais do que guardar objetos ou registrar manifestações culturais. Significa assegurar que as comunidades tenham condições de viver, trabalhar, celebrar, educar seus filhos e manter relações com os territórios onde suas histórias foram construídas.
Festas, cantos, danças, benzeduras, sementes, artesanato, receitas e relatos de família formam um patrimônio coletivo que continua sendo atualizado. Cada geração acrescenta novas experiências sem romper necessariamente com os vínculos ancestrais.
Ao reconhecer essa diversidade, o estado amplia a compreensão sobre sua própria história. As comunidades quilombolas fazem parte da formação social e cultural do Rio Grande do Sul e contribuem para uma identidade gaúcha mais plural, na qual a presença negra deixa de ser tratada como elemento secundário e passa a ser reconhecida como parte estruturante da trajetória regional.