segunda-feira, 28 de setembro de 2026
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Artesanato feito com materiais e técnicas tradicionais preserva a cultura do Rio Grande do Sul

O artesanato feito com materiais e técnicas tradicionais no Rio Grande do Sul traduz a diversidade cultural do Estado. Entre os principais exemplos estão o trabalho em couro, a cestaria indígena, a palha de butiá, a madeira, o porongo, o osso e a renda de bilro.

O artesanato feito com materiais e técnicas tradicionais no Rio Grande do Sul reúne conhecimentos transmitidos entre gerações e expressa a diversidade cultural do Estado. Couro, madeira, fibras vegetais, osso, porongo, lã, tecidos e palha aparecem em objetos de uso cotidiano, peças decorativas, artigos de montaria, instrumentos e elementos ligados a diferentes comunidades.

Mais do que uma atividade manual, essa produção envolve modos de fazer, escolhas de matéria-prima, relação com o território e formas próprias de ensinar e preservar conhecimentos. Em muitos casos, a técnica é aprendida no ambiente familiar ou comunitário, por meio da observação e da prática.

A legislação estadual classifica como artesanato tradicional a manifestação popular que conserva costumes e a cultura de determinado povo ou região. A definição também diferencia o artesanato indígena, o típico regional étnico e o contemporâneo, categorias que ajudam a reconhecer a variedade da produção artesanal gaúcha.

O Portal do Artesanato Gaúcho, mantido pela Fundação Gaúcha do Trabalho e Ação Social, reúne informações sobre matérias-primas, técnicas e artesãos cadastrados no Estado.

Couro e a tradição dos guasqueiros

O couro é um dos materiais mais associados ao artesanato tradicional do Rio Grande do Sul. Sua presença está relacionada à formação histórica das atividades pecuárias e à cultura da vida campeira. A matéria-prima é utilizada na produção de artigos pessoais, utensílios, objetos de decoração, peças de montaria e instrumentos musicais.

O profissional especializado no trabalho com couro é conhecido como guasqueiro. Entre suas atividades está a confecção de aperos tradicionais usados na montaria, além de rédeas, laços, bainhas, cinturões e outros objetos. A produção pode combinar utilidade, resistência e acabamento ornamental.

Segundo a classificação do artesanato gaúcho, o couro é trabalhado por meio de técnicas como o trançado em tento, a pirografia, a modelagem e a costura. O trançado em tento é uma prática especialmente associada aos guasqueiros do Estado e exige domínio sobre cortes, espessuras e tensão das tiras.

A pirografia permite gravar desenhos com o uso de calor, enquanto a modelagem modifica a forma do couro e a costura une partes da peça. O resultado depende tanto da habilidade manual quanto da escolha do material e do conhecimento sobre seu comportamento.

Fibras vegetais, cestaria e relação com o território

As fibras vegetais estão entre as matérias-primas mais versáteis do artesanato tradicional do Rio Grande do Sul. A categoria inclui butiá, palha de milho, taquara, bananeira, bambu e sisal. Depois de coletadas e beneficiadas, essas fibras podem ser trançadas para formar cestos, bolsas, esteiras, objetos decorativos e utensílios.

A cestaria indígena ocupa lugar importante nesse conjunto. Comunidades Kaingang, Guarani Mbya e de outros povos utilizam fibras vegetais, madeira, sementes e outros elementos naturais em peças que podem ter função prática, simbólica e cultural. Os desenhos, formatos e combinações de materiais variam de acordo com os saberes de cada comunidade.

Em agosto de 2023, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado registrou o Modo de Fazer Artesanato com Palha de Butiá na Região de Torres como bem cultural imaterial. A prática é associada a comunidades rurais que vivem historicamente próximas aos butiazais e envolve a coleta das folhas, o tratamento das fibras, a confecção de tranças, a costura e a comercialização de produtos.

De acordo com o Iphae, o saber é transmitido há várias gerações e continua ligado à atuação de famílias das localidades de Campo Bonito, Águas Claras, São Brás, Faxinal, Itapeva e Vila São João. O registro reconhece não apenas o objeto final, mas o conjunto de conhecimentos e relações sociais envolvidos no modo de fazer.

Madeira: do entalhe à marchetaria

A madeira é empregada na confecção de objetos utilitários e decorativos. Em oficinas familiares, ateliês rurais e comunidades artesanais, pode ser transformada em esculturas, brinquedos, utensílios domésticos, móveis, placas, imagens e peças para decoração.

As principais técnicas associadas à madeira no artesanato gaúcho são o entalhe, a carpintaria, a pirografia e a marchetaria. O entalhe retira partes do material para criar formas e relevos. A carpintaria reúne procedimentos de corte e montagem. A pirografia utiliza calor para desenhar ou marcar a superfície, enquanto a marchetaria combina fragmentos de diferentes materiais para formar padrões.

Também há produção com madeira de descarte ou encontrada na natureza, desde que seu uso respeite as regras ambientais aplicáveis. Nesse caso, o reaproveitamento pode se tornar parte do conceito da peça, sem eliminar a necessidade de cuidado com origem, tratamento e conservação do material.

Osso, chifre e outros materiais ligados à pecuária

O osso é outra matéria-prima presente no artesanato tradicional do Estado. Seu uso está relacionado ao sistema sociocultural formado em torno da pecuária bovina, atividade que marcou a história econômica e cultural do Rio Grande do Sul.

O material pode ser empregado em objetos decorativos, acessórios, cabos e peças de uso pessoal. Entre as técnicas utilizadas estão o entalhe, a pirografia, o calado e a machetaria. O trabalho exige preparação, corte, acabamento e polimento, além de atenção às características específicas de cada fragmento.

Em algumas produções de cutelaria e artigos campeiros, o osso e o chifre aparecem associados à madeira, ao metal e ao couro. A combinação de matérias-primas cria peças que reúnem técnicas diferentes e, em muitos casos, aproveita materiais vinculados à atividade rural.

Porongo, lã e palha na produção regional

O porongo é utilizado em cuias, recipientes e objetos característicos de diferentes regiões do Estado. A transformação começa com a secagem e a preparação da casca, seguida de cortes, calados, pinturas, gravações ou outros acabamentos. A cuia, além de objeto artesanal, está relacionada ao costume de consumir chimarrão, prática amplamente difundida no Sul do Brasil.

A lã também aparece em trabalhos manuais, especialmente na fiação, na tecelagem, no crochê, no tricô, no bordado e na produção de peças para vestuário e decoração. Em áreas ligadas à criação de ovinos, o conhecimento sobre a fibra pode envolver tosquia, seleção, limpeza, fiação e transformação do fio.

A palha de trigo, a palha de milho, o junco e o vime são usados em chapéus, cestos, flores, bolsas e objetos decorativos. A preparação pode incluir secagem, seleção, umedecimento e trançado. O domínio do ponto e da tensão é decisivo para garantir resistência e regularidade.

Renda de bilro e trabalhos com fios

Os trabalhos com fios também fazem parte da memória artesanal do Rio Grande do Sul. A renda de bilro, ou renda de almofada, foi registrada em acervos históricos como uma prática comum no Estado. A técnica utiliza uma almofada, um desenho fixado em papelão, linha enrolada em bilros e alfinetes que orientam a formação da trama.

O processo é lento e exige coordenação, precisão e paciência. Os bilros são movimentados para entrelaçar os fios, enquanto o desenho serve de referência para a construção da renda. O resultado pode ser aplicado em peças de vestuário, toalhas, adornos e objetos decorativos.

Além da renda, bordados, tapeçarias e trabalhos com fibras têxteis preservam padrões, pontos e formas de acabamento transmitidos no ambiente familiar. A continuidade dessas técnicas depende da existência de pessoas dispostas a aprender, ensinar e adaptar a produção às necessidades atuais sem descaracterizar seus fundamentos.

Saberes indígenas, quilombolas e comunidades rurais

O artesanato tradicional gaúcho não se resume à imagem da cultura campeira. Comunidades indígenas, quilombolas, rurais e de imigração mantêm modos de fazer próprios, associados a seus territórios, histórias e formas de organização.

Em exposições e feiras estaduais, aparecem trabalhos indígenas produzidos com palha, madeira, taquara e sementes. Cestos, arcos, brinquedos e outros objetos podem reunir conhecimentos sobre coleta, beneficiamento e uso dos elementos naturais. A produção quilombola também integra esse cenário, com peças baseadas em práticas transmitidas entre gerações.

O reconhecimento dessas produções exige identificar a autoria e respeitar os significados atribuídos pelas comunidades. A valorização comercial não deve separar o objeto de seu contexto cultural nem tratar como simples decoração aquilo que possui função simbólica, ritual ou identitária.

Preservação, renda e continuidade das técnicas

O artesanato tradicional cumpre funções culturais e econômicas. Para muitas famílias, a venda de peças complementa a renda ou constitui a principal atividade profissional. Ao mesmo tempo, o setor enfrenta desafios relacionados ao acesso a matéria-prima, à divulgação, à concorrência industrial, à sucessão entre gerações e à remuneração compatível com o tempo de trabalho.

No Rio Grande do Sul, o Programa Gaúcho de Artesanato realiza o cadastramento de artesãos e oferece a Carteira de Artesão. Segundo a FGTAS, o registro pode permitir a participação em feiras e exposições, a emissão de notas fiscais e o acesso a mecanismos de reconhecimento profissional, conforme as regras do programa.

A preservação das técnicas depende de políticas públicas, registro dos saberes, formação, acesso a mercados e respeito às comunidades detentoras do conhecimento. Também depende de consumidores atentos à procedência, à autoria e ao tempo necessário para produzir cada peça.

O artesanato feito com materiais e técnicas tradicionais no Rio Grande do Sul permanece, assim, como uma prática viva. Ele conserva referências do passado, incorpora mudanças e continua sendo recriado por artesãos que transformam materiais locais e conhecimentos herdados em objetos de uso, memória e identidade.

Fontes consultadas

As informações foram organizadas a partir de conteúdos do Artesanato Gaúcho, da Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado, do Museu de História Julio de Castilhos e da Fundação Gaúcha do Trabalho e Ação Social.