A saúde mental entre estudantes é parte essencial do desenvolvimento e não deve ser tratada como um assunto secundário na rotina escolar. O bem-estar emocional interfere na capacidade de aprender, manter vínculos, participar das atividades e permanecer na escola. Por isso, identificar sinais de sofrimento e oferecer acolhimento pode evitar o agravamento de situações que exigem atenção.
No Rio Grande do Sul, escolas, famílias, serviços de saúde e comunidades podem atuar de forma integrada. A rede pública conta com ações de promoção da saúde no ambiente escolar, Unidades Básicas de Saúde (UBS), Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e serviços de urgência para situações de crise.
Por que a saúde mental é importante para os estudantes
A saúde mental não significa estar feliz o tempo todo nem viver sem preocupações. Segundo o Ministério da Saúde, ela envolve o bem-estar, as condições de vida, as relações sociais e a capacidade de lidar com os desafios cotidianos.
Na vida escolar, diversos fatores podem influenciar esse equilíbrio. Pressão por desempenho, mudanças familiares, conflitos com colegas, bullying, dificuldades econômicas, discriminação, insegurança, excesso de tarefas e problemas relacionados ao sono ou à alimentação são alguns exemplos. Eventos traumáticos, como perdas e situações de emergência ou calamidade, também podem afetar a rotina e o rendimento.
O sofrimento emocional pode aparecer de diferentes formas. Alguns estudantes demonstram tristeza ou ansiedade; outros ficam irritados, silenciosos, agressivos ou excessivamente isolados. Também podem surgir queda no desempenho, faltas frequentes, dificuldade de concentração, mudanças no sono e perda de interesse por atividades antes valorizadas.
Sinais de alerta que merecem atenção
Um sinal isolado não permite concluir que o estudante tenha um transtorno mental. A avaliação deve ser feita por profissionais capacitados. Ainda assim, mudanças persistentes ou intensas no comportamento justificam uma conversa cuidadosa e, quando necessário, a busca por atendimento.
- Tristeza intensa, choro frequente ou sensação de vazio;
- ansiedade persistente, medo excessivo ou crises de pânico;
- isolamento de familiares, amigos e colegas;
- irritabilidade, explosões de raiva ou mudança brusca de humor;
- queda repentina no rendimento ou na frequência escolar;
- perda de interesse por atividades, esportes ou encontros;
- alterações importantes no sono, no apetite ou na disposição;
- queixas físicas recorrentes, como dores de cabeça ou de estômago, sem causa identificada;
- fala de desesperança, de que não vale a pena continuar ou de que a pessoa quer desaparecer;
- lesões autoprovocadas, ameaças ou tentativas de suicídio.
Em crianças e adolescentes, nem sempre o sofrimento é explicado com clareza. Mudanças no comportamento, no desempenho e na interação social podem ser a maneira encontrada para comunicar que algo não vai bem. Por isso, é importante observar o conjunto de sinais e a duração das alterações, sem rotular ou ridicularizar o estudante.
Como a família e a escola podem oferecer apoio
O primeiro passo é criar um espaço seguro para a conversa. Perguntas abertas, como “o que tem sido mais difícil?” ou “como posso ajudar?”, tendem a ser mais úteis do que cobranças e julgamentos. O estudante deve ser ouvido com atenção, sem interrupções e sem a promessa de que o problema será resolvido imediatamente.
Também é importante evitar frases que minimizem o sofrimento, como “isso é falta do que fazer”, “você precisa ser mais forte” ou “todo mundo passa por isso”. O reconhecimento da dificuldade não significa concordar com tudo, mas demonstra que a pessoa não está sozinha.
Na escola, professores e equipes de orientação podem observar mudanças na frequência, no rendimento e na convivência. Quando houver preocupação, a instituição deve conversar com o estudante e, conforme a idade e a situação, acionar os responsáveis e articular o cuidado com a rede de saúde. A escola não substitui o atendimento psicológico ou médico, mas pode ser um ponto importante de escuta, proteção e encaminhamento.
Ações coletivas também ajudam. O Programa Saúde na Escola articula as áreas de educação e saúde para promover qualidade de vida, prevenir problemas e estimular ações de cuidado nas comunidades escolares. Entre as iniciativas previstas está a promoção da saúde mental.
O que fazer quando o estudante apresenta sofrimento emocional
Quando os sinais são persistentes, interferem nos estudos ou prejudicam a convivência, a orientação é buscar uma avaliação na rede de saúde. A porta de entrada pode ser a UBS ou a equipe de Saúde da Família do município. Esses serviços podem acolher a demanda, orientar a família e encaminhar o estudante quando for necessário atendimento especializado.
Os CAPS são serviços públicos de saúde mental abertos à comunidade. Conforme o Ministério da Saúde, eles atendem pessoas em sofrimento psíquico intenso e podem apoiar a continuidade do cuidado, inclusive em situações relacionadas ao uso prejudicial de álcool e outras drogas. A disponibilidade de modalidades, como o CAPS infantojuvenil, depende da organização da rede de cada município.
No Rio Grande do Sul, a Secretaria Estadual da Saúde mantém informações sobre a Política Estadual de Saúde Mental e a Rede de Atenção Psicossocial. Como os serviços, horários e formas de acesso variam entre as cidades, é recomendável consultar a Secretaria Municipal de Saúde, a UBS de referência ou a unidade escolar.
Atendimento para jovens de 13 a 24 anos
Jovens entre 13 e 24 anos também podem buscar acolhimento e orientação pela plataforma Pode Falar, integrada ao aplicativo Meu SUS Digital. De acordo com o Ministério da Saúde, o serviço oferece escuta qualificada e orientação em saúde mental. A plataforma não substitui o atendimento presencial quando há sofrimento persistente, risco ou necessidade de avaliação clínica.
O acesso pode ser feito pelo Meu SUS Digital, conforme as condições informadas pelo Ministério da Saúde. Em caso de dúvida sobre o aplicativo ou sobre a rede local, a UBS continua sendo um canal de orientação.
Como agir em uma situação de crise
Em uma crise, a prioridade é preservar a segurança do estudante e das pessoas próximas. Fale com calma, reduza estímulos no ambiente, evite discussões e não deixe a pessoa sozinha quando houver risco. Não tente conter fisicamente o estudante, a menos que exista uma emergência imediata e a ação seja necessária para evitar um dano grave.
O SAMU 192 deve ser acionado quando houver risco imediato à vida ou à integridade da pessoa ou de terceiros. O Guia de Apoio à Família em Crise de Saúde Mental do Rio Grande do Sul orienta a chamar o serviço em situações como tentativa ou ameaça de suicídio, automutilação com risco de vida, confusão intensa, agitação fora de controle, alucinações, intoxicação grave ou dificuldade para respirar.
Se a pessoa falar em morrer, desaparecer ou acabar com a própria vida, leve a manifestação a sério. Pergunte diretamente se existe intenção de se machucar, procure ajuda profissional e não deixe o estudante sozinho diante de risco imediato. Em uma emergência, ligue para o SAMU 192 ou procure uma UPA, pronto-socorro ou hospital.
O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia. O serviço pode ser procurado por quem precisa conversar, mas não substitui o atendimento de emergência quando há risco iminente.
Cuidados que ajudam na prevenção
A prevenção não depende de uma única medida. Uma rotina com sono adequado, alimentação regular, atividade física compatível com a idade, momentos de lazer e convivência pode contribuir para o bem-estar. Essas práticas, no entanto, não devem ser apresentadas como solução para todos os casos nem como substitutas do tratamento profissional.
Também é recomendável estabelecer limites para as cobranças escolares e acompanhar o uso de redes sociais. Comparações constantes, exposição a conteúdos violentos, cyberbullying e conflitos virtuais podem agravar a ansiedade e o isolamento. A família e a escola devem orientar sem transformar a fiscalização em invasão de privacidade.
Falar sobre saúde mental de modo responsável ajuda a reduzir o estigma. Estudantes precisam saber que pedir ajuda não é sinal de fraqueza e que o sofrimento emocional pode ser cuidado. Professores e familiares, por sua vez, devem reconhecer seus próprios limites e encaminhar a situação quando ela exigir avaliação especializada.
Informação e acolhimento fazem parte do cuidado
A saúde mental entre estudantes exige atenção contínua, escuta e articulação entre diferentes setores. A escola pode identificar mudanças e fortalecer vínculos; a família pode oferecer apoio cotidiano; e os serviços de saúde podem avaliar, tratar e acompanhar cada caso.
No Rio Grande do Sul, estudantes e responsáveis podem começar pela escola, pela UBS ou pela Secretaria Municipal de Saúde para descobrir quais serviços estão disponíveis no território. Em situações de emergência, o atendimento deve ser buscado imediatamente pelo SAMU 192, por uma UPA ou por um hospital. Quanto mais cedo o sofrimento for reconhecido, maiores são as possibilidades de proteção e continuidade do cuidado.