São Borja ocupa uma posição singular na história do Rio Grande do Sul e do Brasil. Fundado em 1682 como a redução de São Francisco de Borja, o município teve origem no processo de formação dos Sete Povos das Missões e, ao longo dos séculos, esteve relacionado a disputas territoriais, conflitos militares, movimentos republicanos e grandes acontecimentos da política nacional.
A cidade também ficou conhecida como Terra dos Presidentes por ter sido o local de nascimento de Getúlio Vargas e João Goulart, dois personagens centrais da história política brasileira no século 20. Antes deles, porém, outras figuras ajudaram a formar a identidade histórica de São Borja, entre religiosos, lideranças locais, militares e integrantes das elites políticas da fronteira.
São Francisco de Borja e a origem missioneira
O nome do município está ligado a São Francisco de Borja, religioso espanhol que foi integrante da Companhia de Jesus e chegou ao cargo de terceiro superior-geral da ordem. Nascido em 1510, Francisco de Borja pertencia à nobreza espanhola, mas abandonou a vida cortesã após a morte da esposa e ingressou na vida religiosa.
A homenagem ao santo foi incorporada à redução fundada pelos jesuítas nas Missões Orientais. Segundo o histórico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, São Borja surgiu em 1682, durante o retorno da presença jesuítica à região, e foi o mais antigo dos chamados Sete Povos das Missões.
A redução reunia indígenas guaranis e religiosos em uma organização que combinava atividades agrícolas, criação de gado, ensino religioso e produção artística. O processo missioneiro também deu origem a uma tradição de escultura e música que marcou a cultura regional. O padre Tomás Bruno é citado no histórico do IBGE como uma das figuras relacionadas à orientação dos primeiros indígenas escultores formados na missão.
Essa etapa ajuda a explicar por que a história de São Borja não começa com os presidentes da República. A formação do município está associada a um período anterior à definição das fronteiras nacionais e à disputa entre as coroas portuguesa e espanhola pelo controle do sul da América.
Tomás Bruno e a produção cultural das Missões
Entre os religiosos ligados aos primeiros anos da redução, Tomás Bruno aparece como uma referência na organização cultural e educacional da comunidade missioneira. O registro histórico do IBGE relaciona sua atuação ao surgimento dos primeiros indígenas escultores da região.
A produção artística das reduções não se limitava à ornamentação dos templos. Ela fazia parte do processo de ensino e catequese conduzido pelos jesuítas, ao mesmo tempo em que incorporava habilidades e formas de expressão dos povos originários. Por isso, a memória de personagens como Tomás Bruno está associada não apenas à religião, mas também à formação de uma linguagem artística própria nas Missões.
Com as mudanças políticas provocadas pelo Tratado de Madri, em 1750, e pelas disputas posteriores entre Portugal e Espanha, a estrutura missioneira entrou em processo de desagregação. Ainda assim, sua influência permaneceu na organização territorial, na cultura e na memória histórica de São Borja.
Manuel do Nascimento Vargas e a tradição militar da fronteira
A família Vargas já possuía presença política e militar relevante em São Borja antes da ascensão de Getúlio Vargas. Manuel do Nascimento Vargas, pai do futuro presidente, combateu na Guerra do Paraguai e, segundo o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getulio Vargas, destacou-se como herói militar.
A trajetória de Manuel ajuda a compreender o ambiente social em que Getúlio cresceu. São Borja era uma cidade de fronteira, marcada por conflitos regionais, circulação entre Brasil e Argentina e forte presença de famílias ligadas à pecuária, à política e às forças militares.
Na segunda metade do século 19, o município esteve envolvido em episódios da Guerra da Tríplice Aliança. O território foi invadido por forças paraguaias em 1865, e a posição estratégica da cidade reforçou sua importância na defesa da fronteira oeste do Rio Grande do Sul.
Aparício Mariense e a defesa da República
Aparício Mariense da Silva foi uma das principais lideranças políticas de São Borja no final do Império. Vereador e republicano, ele ficou associado à chamada Moção Plebiscitária de São Borja, apresentada no contexto das discussões sobre a sucessão do trono brasileiro.
A proposta, apresentada na Câmara Municipal em 1887 e aprovada em janeiro de 1888, defendia que a população fosse consultada sobre a possibilidade de um Terceiro Reinado. A iniciativa ganhou repercussão em jornais republicanos e transformou São Borja em um dos centros do debate político que antecedeu a Proclamação da República.
O episódio não significava apenas uma manifestação local. A moção expressava a mobilização de setores republicanos contra a continuidade da monarquia e revelava a existência de articulação política em municípios afastados da Corte. Estudos acadêmicos apontam Aparício Mariense como uma figura de destaque na organização republicana de São Borja e no debate público do Rio Grande do Sul.
A atuação de Mariense também se relacionou ao movimento abolicionista. Registros históricos do município destacam que São Borja declarou extinta a escravidão em 7 de setembro de 1884, antes da assinatura da Lei Áurea, em 1888. A participação de lideranças locais nesse processo faz parte da memória política associada ao município.
Getúlio Vargas, o presidente nascido em São Borja
Getúlio Dornelles Vargas nasceu em São Borja em 19 de abril de 1882. Formado em Direito, iniciou a carreira política no Rio Grande do Sul e ocupou cargos de deputado estadual, deputado federal, ministro da Fazenda e presidente do estado.
Em 1930, liderou o movimento que derrubou o governo de Washington Luís e assumiu o Governo Provisório. A partir daí, comandou o país em diferentes períodos: de 1930 a 1945 e, depois, de 1951 a 1954, quando foi eleito presidente pelo voto popular.
O período Vargas foi marcado por mudanças profundas na estrutura do Estado brasileiro. Seu governo criou instituições, ampliou a legislação trabalhista, fortaleceu a intervenção estatal na economia e implantou políticas de industrialização. Ao mesmo tempo, a trajetória incluiu o Estado Novo, regime autoritário instaurado em 1937, que restringiu direitos políticos e fechou o Congresso Nacional.
A relação de Vargas com São Borja permaneceu presente durante toda a vida pública. A cidade era sua base familiar e política, e a residência onde viveu com a família foi transformada no Museu Getúlio Vargas. O espaço preserva documentos, objetos e informações sobre sua trajetória e sobre a participação da família Vargas na história regional.
A memória de Getúlio em São Borja é, portanto, ambivalente e histórica: reúne o presidente associado à legislação social e à industrialização, mas também o governante que conduziu períodos de concentração de poder. A preservação de sua casa permite observar essas diferentes dimensões sem separar o personagem de suas contradições.
João Goulart e a continuidade do trabalhismo
João Belchior Marques Goulart nasceu em São Borja em 1º de março de 1919. Conhecido como Jango, era filho de Vicente Rodrigues Goulart e Vicentina Marques Goulart. Formado em Direito, retornou à região depois dos estudos e passou a administrar os negócios da família.
Sua aproximação com Getúlio Vargas foi decisiva para a entrada na política. Segundo o CPDOC da Fundação Getulio Vargas, Goulart ganhou projeção no Partido Trabalhista Brasileiro a partir da convivência com Vargas e da popularidade que mantinha entre os moradores de São Borja.
Jango foi deputado estadual, deputado federal, ministro do Trabalho, vice-presidente da República e presidente. Chegou ao cargo máximo do país em 1961, após a renúncia de Jânio Quadros. Seu governo defendeu as chamadas reformas de base, que incluíam propostas nas áreas agrária, educacional, fiscal e urbana.
A presidência de João Goulart ocorreu em um período de forte polarização política e social. Em 1964, ele foi deposto pelo movimento civil-militar que iniciou a ditadura brasileira. Goulart deixou o país e morreu no exílio, em 1976.
A casa onde viveu durante a infância e a juventude foi construída em 1927 e posteriormente restaurada. Hoje, o imóvel abriga o Memorial Casa de João Goulart, instituição dedicada à preservação de documentos, imagens, objetos e informações sobre a vida do ex-presidente.
A relação entre Vargas e Jango
A proximidade entre Getúlio Vargas e João Goulart é um dos elementos mais marcantes da história política de São Borja. Mais do que uma relação entre dois políticos, ela representa a transmissão de uma corrente trabalhista que influenciou o Brasil entre as décadas de 1930 e 1960.
Vargas identificou em Jango um possível sucessor político e contribuiu para sua entrada no cenário nacional. Goulart, por sua vez, tornou-se uma das principais lideranças do trabalhismo brasileiro, especialmente na defesa de medidas voltadas à ampliação dos direitos sociais e à reorganização econômica.
Essa ligação também explica a concentração de espaços de memória dedicados aos dois presidentes em São Borja. O Museu Getúlio Vargas e o Memorial Casa de João Goulart formam um conjunto que permite acompanhar diferentes fases da política brasileira a partir de uma mesma cidade.
Uma cidade formada por diferentes camadas históricas
Os personagens históricos ligados a São Borja não pertencem a um único período. São Francisco de Borja representa a origem religiosa que deu nome ao município; Tomás Bruno está relacionado à organização cultural das Missões; Manuel do Nascimento Vargas simboliza a tradição militar da fronteira; Aparício Mariense expressa a mobilização republicana; e Getúlio Vargas e João Goulart projetaram a cidade para o centro da política nacional.
Essa sucessão de personagens revela como a história de São Borja foi construída por camadas. A cidade nasceu no contexto missioneiro, atravessou disputas territoriais e guerras, participou das transformações políticas do fim do Império e se tornou referência na história republicana brasileira.
Por isso, compreender São Borja exige observar tanto os grandes nomes conhecidos nacionalmente quanto as lideranças locais e os grupos que participaram da formação do município. A história dos presidentes é parte essencial dessa trajetória, mas não resume a dimensão histórica de uma cidade cuja origem remonta ao século 17.