segunda-feira, 28 de setembro de 2026
Esportes

Mulheres que fazem história no esporte gaúcho: pioneiras e campeãs que abriram caminhos

A história do esporte gaúcho também é marcada pela atuação de mulheres que enfrentaram restrições, conquistaram títulos inéditos e abriram espaço para novas gerações. Conheça trajetórias de pioneiras do futebol, do judô, da ginástica artística e do vôlei.

As mulheres que fazem história no esporte gaúcho não estão reunidas em uma única modalidade nem pertencem à mesma geração. Elas aparecem em diferentes momentos do desenvolvimento esportivo do Rio Grande do Sul: nas primeiras equipes de futebol feminino, nos tatames, nas quadras, nos aparelhos da ginástica artística e também na gestão de clubes e seleções.

Algumas enfrentaram proibições legais e a falta de estrutura. Outras alcançaram resultados inéditos para o Brasil em competições internacionais. Em comum, essas trajetórias mostram que a presença feminina no esporte gaúcho foi construída por meio de persistência, organização e desempenho.

A lista a seguir não pretende encerrar essa história, que inclui atletas, treinadoras, árbitras, dirigentes, professoras e profissionais de projetos sociais. O objetivo é destacar nomes e momentos que ajudam a entender a evolução do esporte praticado por mulheres no Estado.

Lea Linhares e o pioneirismo no judô

Antes de o judô feminino ganhar espaço em campeonatos nacionais e nos Jogos Olímpicos, Lea Linhares enfrentou uma estrutura esportiva pouco preparada para receber mulheres. Segundo registros reunidos pelo Museu do Futebol, ela foi a primeira mulher a conquistar a faixa-preta de judô no Rio Grande do Sul.

A conquista ocorreu em 1969, depois de Lea obter as faixas roxa, em 1967, e marrom, em 1968. O feito teve importância que ultrapassou o resultado individual: ajudou a questionar a ideia de que as artes marciais seriam incompatíveis com a participação feminina.

O reconhecimento de Lea Linhares também revela uma característica recorrente na história das mulheres no esporte gaúcho. Muitas pioneiras precisaram primeiro provar que poderiam participar para, só depois, disputar espaço institucional, disputar competições e buscar uma carreira esportiva.

Marianita Nascimento e as pioneiras do futebol feminino

A história do futebol feminino no Rio Grande do Sul passa diretamente por Marianita da Silva Nascimento. No segundo semestre de 1980, ela capitaneou o primeiro time de futebol feminino do Grêmio, em um período em que a prática ainda enfrentava os efeitos de uma proibição nacional.

O Decreto-Lei nº 3.199, de 1941, impedia a prática de esportes considerados incompatíveis com a natureza feminina. A regulamentação do futebol feminino só ocorreu em 1983. Nesse intervalo, jogadoras gaúchas mantiveram equipes e torneios mesmo sem uma estrutura oficial consolidada.

O grupo liderado por Marianita disputou competições pelo Esporte Futebol Clube e venceu o primeiro Campeonato Gaúcho extraoficial de futebol feminino, em 1982. Em 1983, participou do primeiro Torneio Brasileiro de Clubes Campeões de Futebol Feminino, realizado em Copacabana, no Rio de Janeiro. A trajetória das pioneiras está documentada na história oficial das Gurias Gremistas.

Marianita também teve atuação fora das quatro linhas. Foi presidente da Liga de Futebol Feminino de Porto Alegre, entidade que organizou o primeiro campeonato gaúcho extraoficial da modalidade. Seu percurso mostra que a consolidação do futebol feminino dependeu não apenas das jogadoras, mas também de mulheres envolvidas na organização das equipes e das competições.

Duda Luizelli e a construção do futebol feminino no Inter

Eduarda Luizelli, conhecida como Duda, pertence a uma geração que ajudou a manter o futebol feminino em atividade no Estado depois da regulamentação da modalidade. Revelada pelo Internacional aos 13 anos, em 1984, ela se tornou uma das principais referências do clube e do futebol praticado por mulheres no Rio Grande do Sul.

Na década de 1990, Duda jogou na Itália, por Milan e Verona, e se tornou, segundo registros publicados na época, a primeira gaúcha a atuar no futebol do exterior. Ao retornar ao Brasil, criou uma escola de futebol voltada a meninas e passou a trabalhar também na formação de novas atletas.

Em 1996, participou da reabertura do departamento feminino do Internacional. Mais tarde, assumiu funções de gestão no clube e coordenou o futebol feminino colorado. Em 2020, foi anunciada como coordenadora das seleções femininas da Confederação Brasileira de Futebol. A trajetória de Duda é um exemplo de transição da atleta para a dirigente e de como a experiência acumulada dentro de campo pode contribuir para a estruturação da modalidade.

O trabalho de Duda também evidencia uma dificuldade histórica: a interrupção frequente de projetos femininos por falta de investimento, calendário e continuidade. A permanência da modalidade depende de categorias de base, equipes profissionais e políticas que não estejam condicionadas apenas ao desempenho de uma temporada.

Daiane dos Santos e o salto inédito na ginástica

Natural de Porto Alegre, Daiane dos Santos tornou-se um dos maiores nomes da ginástica artística brasileira. Em 2003, no Mundial de Anaheim, nos Estados Unidos, conquistou a medalha de ouro no solo, resultado inédito para uma atleta brasileira em um Campeonato Mundial da modalidade.

A apresentação também ficou marcada pelo movimento que recebeu o nome da ginasta: o duplo twist carpado, conhecido internacionalmente como “Dos Santos”. A conquista colocou Daiane no centro da ginástica mundial e ampliou a visibilidade da modalidade no Brasil.

O título teve impacto esportivo e simbólico. Até então, o país ainda buscava consolidar sua presença na ginástica artística feminina. A vitória de Daiane ajudou a mostrar que uma atleta brasileira poderia competir em alto nível e disputar os principais pódios internacionais.

O percurso da ginasta também contribuiu para aproximar meninas do esporte. A visibilidade conquistada por ela estimulou a identificação de novas praticantes e reforçou a importância de projetos de iniciação esportiva e de centros de treinamento capazes de oferecer acompanhamento técnico de longo prazo.

Mayra Aguiar e a regularidade no judô olímpico

Mayra Aguiar, nascida em Porto Alegre, é uma das principais atletas da história do judô brasileiro e um dos maiores nomes do esporte gaúcho. A judoca conquistou três medalhas de bronze em Jogos Olímpicos consecutivos: Londres 2012, Rio de Janeiro 2016 e Tóquio 2020, segundo o Comitê Olímpico do Brasil.

Além dos pódios olímpicos, Mayra foi campeã mundial individual em 2014, 2017 e 2022, na categoria até 78 quilos. A sequência de resultados em diferentes ciclos olímpicos tornou sua carreira uma referência de regularidade, especialmente em uma modalidade marcada por mudanças de adversárias, categorias e ciclos de preparação.

A atleta foi formada no ambiente do judô da Sociedade de Ginástica Porto Alegre, a Sogipa, clube que também revelou e reuniu outros nomes importantes da modalidade. A estrutura gaúcha se consolidou como um dos principais centros do judô brasileiro, com participação em competições nacionais e internacionais.

Mayra também representa uma mudança na percepção sobre as mulheres nas artes marciais. Sua carreira combina força física, técnica e estratégia, características que ajudaram a combater estereótipos sobre a participação feminina em esportes de combate.

Maria Portela e a força da formação social

Outra atleta gaúcha de destaque no judô é Maria de Lourdes Mazzoleni Portela, nascida em Santa Maria. Ela começou a praticar a modalidade em um projeto social da cidade e chegou à seleção brasileira, participando dos Jogos Olímpicos de Londres 2012 e do Rio 2016.

Maria Portela conquistou medalhas em etapas importantes do circuito internacional e foi campeã do World Masters de 2017. Também obteve dois bronzes em Jogos Pan-Americanos, em Guadalajara, em 2011, e Toronto, em 2015. Sua história é associada ao projeto Mãos Dadas, que oferece aulas de judô a crianças e adolescentes de Santa Maria.

O caso de Maria mostra como projetos esportivos comunitários podem funcionar como porta de entrada para o alto rendimento. Nem todos os jovens que iniciam uma modalidade seguirão carreira profissional, mas a oferta de treinamento regular amplia o acesso ao esporte, fortalece vínculos sociais e pode revelar atletas com potencial competitivo.

Fernanda Garay e a presença gaúcha no vôlei

O vôlei também tem uma representante de destaque entre as mulheres que fizeram história no esporte gaúcho. Nascida em Porto Alegre, Fernanda Garay integrou a seleção brasileira que conquistou a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012.

A ponteira também participou da campanha que terminou com a medalha de prata nos Jogos de Tóquio 2020. Sua trajetória inclui passagens por equipes brasileiras e estrangeiras e presença em competições de alto nível pela seleção.

A carreira de Fernanda reforça a importância do voleibol na formação esportiva do Estado. A modalidade conta com uma tradição de clubes, escolas e projetos que ajudam a desenvolver atletas desde as categorias de base. Ao alcançar a seleção brasileira, a jogadora passou a representar não apenas sua equipe, mas também uma rede de formação construída ao longo de anos.

Uma história que continua sendo construída

As trajetórias de Lea Linhares, Marianita Nascimento, Duda Luizelli, Daiane dos Santos, Mayra Aguiar, Maria Portela e Fernanda Garay mostram diferentes formas de protagonismo feminino no esporte gaúcho. Algumas foram pioneiras em períodos de proibição ou pouca estrutura. Outras chegaram ao pódio mundial e olímpico. Há ainda quem tenha ampliado a participação feminina na gestão e na formação de novas atletas.

O avanço, porém, não elimina os desafios. A modalidade feminina ainda depende de investimentos regulares, calendários estáveis, categorias de base, profissionais especializados e maior visibilidade. No futebol, a história das pioneiras lembra que a existência de equipes não garante, por si só, continuidade institucional.

Reconhecer essas mulheres é também preservar a memória esportiva do Rio Grande do Sul. As conquistas individuais ajudam a contar a história, mas o legado mais amplo está na abertura de caminhos para que outras meninas possam começar, permanecer e construir suas próprias trajetórias no esporte.