A história de Taquara e do Vale do Paranhana está relacionada a diferentes ciclos de ocupação do território, ao deslocamento de tropeiros, à chegada de imigrantes europeus e à formação de uma rede de municípios que, durante décadas, teve Taquara como principal centro administrativo. A cidade, localizada junto ao rio dos Sinos e próxima ao rio Paranhana, tornou-se referência para a organização política e econômica de uma ampla área do nordeste do Rio Grande do Sul.
O Vale do Paranhana é formado, em sentido regional, por Taquara, Parobé, Igrejinha, Três Coroas, Rolante e Riozinho. Embora os municípios tenham trajetórias próprias, suas histórias estão conectadas pela geografia, pelos caminhos antigos, pelas atividades agrícolas e industriais e pela influência exercida por Taquara desde o século 19.
Antes da formação dos municípios
Antes da colonização europeia, a área dos vales e das encostas era ocupada por povos indígenas, que utilizavam os rios, matas e caminhos naturais como parte de seu modo de vida. A expansão das propriedades luso-brasileiras, a abertura de rotas e a chegada de imigrantes alteraram progressivamente esse território. A ocupação colonial não ocorreu sobre uma área vazia, mas em meio a disputas, deslocamentos e conflitos que marcaram a história do sul do Brasil.
No século 18 e no início do século 19, a circulação de tropeiros contribuiu para integrar a região a outras áreas do Rio Grande do Sul. As tropas transportavam gado, muares e mercadorias entre os campos da serra e as zonas de comércio próximas ao litoral e ao Vale do Sinos. As trilhas abertas por esses deslocamentos ajudaram a definir pontos de passagem e localidades que mais tarde se transformariam em núcleos urbanos.
A sesmaria e a Colônia do Mundo Novo
Em 1814, uma sesmaria que abrangia áreas correspondentes aos atuais municípios de Taquara, Igrejinha e Três Coroas foi concedida a Antônio Borges de Almeida Leães. A concessão fazia parte da política de distribuição de terras utilizada pela administração portuguesa e, posteriormente, pelo Império, para estimular a ocupação e a produção agrícola.
Em 1845, Tristão José Monteiro adquiriu a área e passou a organizar a chamada Colônia de Santa Maria do Mundo Novo, também conhecida como Colônia do Mundo Novo. A partir de 1846, imigrantes de origem alemã, vindos principalmente de São Leopoldo e de outras colônias do Vale do Sinos, começaram a se estabelecer na região. Também chegaram famílias de outras origens, incluindo grupos italianos, luso-brasileiros e afrodescendentes, que participaram da formação social e econômica local.
A colônia era dividida em três setores: Baixa Santa Maria, correspondente principalmente à área de Taquara; Média Santa Maria, relacionada ao atual território de Igrejinha; e Alta Santa Maria, associada a Três Coroas. O rio Santa Maria, nome antigo do atual rio Paranhana, funcionava como eixo de circulação e escoamento da produção.
As condições de vida eram difíceis. A região tinha áreas de mata fechada, relevo irregular e poucas estradas. O transporte por água e por caminhos de terra era fundamental para levar produtos agrícolas até os centros de comércio. A abertura de lavouras exigia derrubada da mata, construção de moradias e criação de estruturas comunitárias, como igrejas, escolas, moinhos e armazéns.
O nome Taquara e a expansão da ocupação
O nome Taquara está associado à vegetação abundante de taquarais, espécie de bambu silvestre que cobria áreas próximas aos rios e se espalhava pelo território. A denominação passou a identificar a localidade e, mais tarde, o município conhecido como Taquara do Mundo Novo.
A presença dos imigrantes alemães deixou marcas na agricultura, na arquitetura, na religiosidade, na organização comunitária e nos hábitos culturais. A colonização também estimulou o desenvolvimento de pequenas propriedades, nas quais eram produzidos alimentos para o consumo e para a comercialização. A produção excedente era encaminhada por rios, estradas e, posteriormente, pela ferrovia.
O crescimento da localidade levou à criação de estruturas administrativas próprias. Em 1880, foi instalada a primeira comarca de Taquara. Dois anos depois, a localidade foi reconhecida como distrito. O passo decisivo ocorreu em 17 de abril de 1886, quando a Lei Provincial nº 1.568 criou o município de Taquara do Mundo Novo, desmembrado de Santa Cristina do Pinhal. A instalação oficial ocorreu em 7 de janeiro de 1888.
Em 1908, Taquara foi elevada à categoria de cidade. A mudança consolidou a posição do município como centro político e administrativo de um território que incluía diversos distritos e localidades posteriormente emancipados.
Taquara como cidade-mãe do Paranhana
Durante boa parte do século 20, Taquara administrou uma área muito maior do que a atual. Distritos que hoje são municípios independentes permaneceram vinculados à cidade por décadas. Três Coroas emancipou-se em 1959, Igrejinha em 1964 e Parobé em 1982. Outros municípios da serra e do entorno também tiveram relações administrativas com o antigo território de Taquara.
Por essa razão, Taquara é frequentemente chamada de cidade-mãe do Vale do Paranhana. A expressão não se refere apenas à antiguidade do município, mas também à função exercida pela cidade na oferta de serviços, na administração pública, no comércio e na articulação dos caminhos regionais.
A formação municipal ocorreu de maneira gradual. Comunidades rurais cresceram, criaram suas próprias instituições e passaram a reivindicar autonomia política. A emancipação permitiu que cada localidade organizasse orçamento, serviços públicos e políticas de desenvolvimento de acordo com suas características. Ao mesmo tempo, os municípios continuaram ligados por relações econômicas e culturais.
A importância dos rios e dos caminhos
Os rios foram decisivos para a ocupação do Vale do Paranhana. O Paranhana nasce na região serrana, atravessa municípios como Três Coroas, Igrejinha e parte de Taquara e deságua no rio dos Sinos. Durante o período inicial da colonização, os cursos d’água serviam para o transporte de pessoas e mercadorias, além de orientar a abertura de caminhos e a instalação das propriedades.
As antigas estradas também tiveram papel importante. A ligação entre Porto Alegre, o Vale do Sinos, Taquara e a serra aproximou áreas de produção agrícola, centros comerciais e regiões de criação de gado. As rotas utilizadas por tropeiros ajudaram a estabelecer referências geográficas e deram origem a nomes de localidades.
Em Igrejinha, por exemplo, uma pequena igreja teria servido como ponto de referência para viajantes que percorriam a antiga rota entre Porto Alegre e São Francisco de Paula. A denominação acabou sendo incorporada ao nome do município. Em Três Coroas, a tradição local relaciona o nome a uma araucária de três copas que teria servido como marco para quem circulava pelo vale.
A ferrovia e a transformação econômica
A chegada da ferrovia a Taquara, no início do século 20, modificou as condições de transporte e acelerou o desenvolvimento regional. A linha que ligava Taquara a Novo Hamburgo integrou o município ao sistema ferroviário do Vale do Sinos e ampliou o acesso a mercados consumidores e fornecedores.
Com o trem, a produção agrícola passou a ser transportada com maior regularidade. O comércio ganhou dinamismo, novas casas comerciais foram abertas e Taquara reforçou sua posição como entreposto regional. A ferrovia também facilitou a circulação de pessoas, informações e trabalhadores, contribuindo para a urbanização.
O crescimento econômico do período pode ser observado na construção de prédios públicos, bancos, igrejas, clubes e estabelecimentos comerciais. O Palácio Municipal Coronel Diniz Martins Rangel, construído no início do século 20, é um dos símbolos desse processo. O centro histórico ainda preserva edificações ligadas à expansão administrativa e comercial da cidade.
Patrimônio, religiosidade e diversidade cultural
A memória de Taquara está presente em construções urbanas e rurais. No centro, destacam-se prédios públicos, templos religiosos, antigas casas comerciais e imóveis associados às primeiras décadas de urbanização. No interior, edificações com características do enxaimel revelam técnicas construtivas trazidas por imigrantes de origem germânica.
A religiosidade também ocupa lugar importante na história regional. Comunidades católicas e luteranas organizaram igrejas, escolas, cemitérios e associações. Em Taquara, a Igreja Evangélica da Paz teve sua fundação oficial registrada em 1874, e sua torre e seus sinos foram inaugurados em 1888. A presença de diferentes tradições religiosas mostra como a formação do vale foi marcada por comunidades com identidades próprias.
Apesar da forte influência germânica, a cultura do Vale do Paranhana é resultado de uma composição mais ampla. Famílias de origem portuguesa, italiana, polonesa e africana também participaram da ocupação, da agricultura, do comércio e da vida comunitária. A história regional, portanto, não pode ser reduzida a uma única origem étnica.
Da agricultura à indústria calçadista
Durante décadas, a agricultura foi a base da economia local. Pequenas propriedades produziam alimentos, criavam animais e abasteciam os mercados próximos. Com a expansão urbana e a melhoria das vias de transporte, o comércio e as atividades manufatureiras ganharam espaço.
A partir do século 20, especialmente no período de industrialização do Vale dos Sinos, a produção de calçados se espalhou pelo Paranhana. Igrejinha, Três Coroas, Parobé e Taquara passaram a integrar uma cadeia produtiva ligada ao setor calçadista, com geração de empregos, formação de empresas e crescimento das cidades.
O desenvolvimento industrial alterou o perfil da região, mas não eliminou a importância do setor rural, do comércio e dos serviços. O Vale do Paranhana passou a apresentar uma economia diversificada, formada por atividades industriais, agricultura, turismo, comércio e prestação de serviços.
Uma história compartilhada
A história de Taquara e do Vale do Paranhana é, acima de tudo, uma história de conexões. Os rios orientaram a ocupação; as trilhas aproximaram diferentes áreas; a ferrovia ampliou o comércio; e a antiga estrutura administrativa de Taquara serviu de base para a criação de novos municípios.
Compreender essa trajetória ajuda a explicar por que cidades atualmente independentes mantêm vínculos tão estreitos. As festas, os sotaques, a arquitetura, as tradições religiosas, a indústria e as relações comerciais ainda revelam a origem comum na antiga Colônia do Mundo Novo.
Preservar essa memória exige reconhecer tanto o legado da imigração quanto a presença de grupos que foram historicamente apagados dos relatos oficiais. Também significa proteger prédios, documentos, paisagens e práticas culturais que ajudam a contar como o vale se formou. Taquara permanece como um dos principais pontos de referência dessa história regional, não apenas por sua antiguidade, mas pelo papel que desempenhou na construção do território hoje conhecido como Vale do Paranhana.
Referências: Turismo do Rio Grande do Sul, Prefeitura de Taquara, Plano Estratégico do Paranhana e Museu Arqueológico do Rio Grande do Sul. (turismo.rs.gov.br)