Em Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, a produção de vinho está ligada à história das famílias que ocuparam as encostas da região, cultivaram parreirais em pequenas propriedades e transformaram o trabalho agrícola em atividade econômica, cultural e comunitária. A tradição começou a ganhar forma com a chegada dos imigrantes italianos no fim do século 19 e permanece presente em vinícolas de diferentes escalas, desde empreendimentos familiares até empresas de maior porte.
O vinho produzido no município é resultado de uma combinação entre território, conhecimento acumulado e adaptação. Ao longo de décadas, os produtores aprenderam a lidar com o relevo acidentado, as variações climáticas e as limitações da mecanização. Em muitas propriedades, o cultivo da uva ainda envolve diferentes gerações da mesma família, seja no vinhedo, na cantina, na comercialização ou no atendimento a visitantes.
A chegada dos imigrantes e o início dos vinhedos
A formação da vitivinicultura de Bento Gonçalves está relacionada à criação das colônias de Dona Isabel e Conde d’Eu, estabelecidas no século 19. Segundo registros históricos reunidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, os núcleos foram organizados pelo governo provincial e receberam imigrantes europeus. A chegada de colonizadores italianos à região ocorreu a partir de 1875, com grupos provenientes de áreas como Trento, Tirol e Vêneto. (ibge.gov.br)
Os imigrantes trouxeram práticas agrícolas, hábitos alimentares e referências culturais que influenciaram a ocupação da Serra Gaúcha. O cultivo da videira se ajustou às condições locais e passou a dividir espaço com outras atividades da pequena propriedade, como a produção de milho, trigo, frutas, leite e embutidos. A uva, entretanto, encontrou no ambiente familiar uma estrutura adequada para crescer: era cultivada em áreas reduzidas, com uso intenso de mão de obra e participação direta dos moradores.
O desenvolvimento inicial não ocorreu de forma isolada. A proximidade com caminhos que levavam ao porto de São João de Montenegro favoreceu o transporte e a comercialização. Há registros de que, em 1883, as colônias de Dona Isabel e Conde d’Eu já produziam milhões de litros de vinho, indicando que a bebida havia ultrapassado o consumo doméstico e começava a alcançar uma dimensão comercial. (infoteca.cnptia.embrapa.br)
Da produção doméstica à atividade econômica
Durante os primeiros anos, o vinho cumpria funções diversas. Era consumido pelas próprias famílias, utilizado em celebrações e vendido ou trocado dentro das redes locais de comércio. A produção dependia de equipamentos simples, de conhecimentos transmitidos pela prática e da capacidade de aproveitar integralmente os recursos disponíveis na propriedade.
A transformação da vitivinicultura em atividade econômica mais estruturada ocorreu gradualmente. Um dos marcos foi a expansão das vias de transporte. A inauguração da estrada de ferro entre Caxias do Sul e Montenegro, em 1915, ampliou as possibilidades de escoamento da produção e contribuiu para integrar a região a mercados mais distantes. A ferrovia não resolveu todos os obstáculos logísticos, mas abriu novas perspectivas para o comércio de uvas e vinhos. (infoteca.cnptia.embrapa.br)
No início do século 20, surgiram empresas familiares que ajudaram a consolidar a indústria vinícola regional. Registros históricos citam empreendimentos como a Cia. Mônaco, fundada em 1908, e a Carlos Dreher Filho & Cia. e a Vinhos Salton, constituídas em 1910. A presença dessas empresas mostra como parte da produção deixou de estar restrita às cantinas domésticas e passou a adotar estruturas empresariais, sem romper completamente com a origem familiar. (infoteca.cnptia.embrapa.br)
O papel das cooperativas e da organização coletiva
As cooperativas também tiveram importância na trajetória do vinho gaúcho. A criação da Cooperativa Vinícola Aurora e da Cooperativa Vinícola Garibaldi, na década de 1930, exemplifica uma estratégia de organização dos produtores para reunir produção, adquirir insumos, processar uvas e ampliar o poder de negociação. Esse modelo ajudou agricultores de menor escala a participar de uma cadeia produtiva que exigia equipamentos, armazenamento, transporte e acesso a mercados.
Para as famílias produtoras, a cooperação representou uma alternativa à atuação individual em um setor sujeito a oscilações de safra, preços e condições climáticas. A entrega da uva a uma cooperativa ou a uma vinícola permitiu que muitos agricultores mantivessem o cultivo em áreas pequenas, mesmo sem possuir todos os equipamentos necessários para produzir, engarrafar e distribuir o vinho.
Essa estrutura não eliminou as diferenças entre os produtores. Há propriedades que se especializaram na venda de uvas, enquanto outras passaram a elaborar vinhos, espumantes, sucos e derivados. Também existem famílias que combinaram a produção agrícola com o turismo, a gastronomia e a venda direta ao consumidor.
Pesquisa e profissionalização da vitivinicultura
A evolução do setor também foi influenciada pela criação de instituições de pesquisa e formação profissional. A Estação de Enologia de Bento Gonçalves foi instalada em 1941 e iniciou suas atividades no ano seguinte. A estrutura deu origem, décadas depois, à Embrapa Uva e Vinho, que passou a atuar em pesquisas relacionadas à uva, ao vinho e a outras culturas de clima temperado. (embrapa.br)
A pesquisa ajudou a ampliar o conhecimento sobre variedades, porta-enxertos, manejo dos vinhedos, controle de doenças e técnicas de elaboração. Para as famílias produtoras, esse apoio foi importante porque permitiu substituir parte do conhecimento baseado apenas na experiência por práticas técnicas mais precisas, sem eliminar o saber acumulado nas comunidades rurais.
Em uma região marcada por propriedades de pequena extensão, a assistência técnica tem impacto direto na produtividade e na qualidade. Estudos reunidos pela Embrapa descrevem a vitivinicultura da Serra Gaúcha como uma atividade desenvolvida majoritariamente em pequenas propriedades, com vinhedos reduzidos, relevo acidentado e uso intensivo de mão de obra, boa parte de origem familiar. (infoteca.cnptia.embrapa.br)
O conhecimento transmitido entre gerações
A tradição familiar não se resume à repetição de métodos antigos. Ela envolve a transmissão de decisões práticas: o momento da poda, a escolha do local de plantio, a forma de conduzir as videiras, o cuidado durante a colheita e a avaliação da maturação das uvas. Em muitas famílias, esse conhecimento é compartilhado entre pais, filhos e avós, ao mesmo tempo em que incorpora cursos, equipamentos e novas tecnologias.
O ciclo da produção também organiza a vida da propriedade. A poda, o tratamento dos vinhedos, a colheita e a elaboração do vinho exigem períodos de trabalho intenso. Em determinadas etapas, as famílias recorrem a trabalhadores sazonais ou a redes de ajuda entre vizinhos. A participação coletiva reforça vínculos comunitários que se formaram desde os primeiros núcleos de colonização.
Nas cantinas familiares, a produção costuma estar associada a outros elementos da cultura local. A comida, os dialetos de origem italiana, as festas da colheita, os utensílios antigos e as histórias dos antepassados ajudam a apresentar o vinho como parte de um modo de vida, e não apenas como uma bebida comercial.
Vinho colonial e permanência da pequena propriedade
O chamado vinho colonial está relacionado à produção realizada por agricultores familiares. A legislação brasileira prevê regras específicas para esse tipo de produto, incluindo exigências sobre elaboração, identificação no rótulo e formas de comercialização. A denominação não elimina as obrigações regulatórias aplicáveis aos produtores, que precisam atender às normas estabelecidas para o setor. (sistemasweb.agricultura.gov.br)
Para a agricultura familiar, a elaboração de vinho pode representar uma forma de agregar valor à uva e melhorar a renda da propriedade. Em vez de vender somente a matéria-prima, o agricultor pode participar de outras etapas da cadeia, desde que esteja regularizado e cumpra os requisitos técnicos, sanitários e fiscais. Publicação produzida por instituições como Embrapa, Ibravin, Emater e universidades destaca que o vinho, mesmo em pequena escala, pode contribuir para a viabilidade econômica do imóvel rural e para a permanência dos jovens no campo. (infoteca.cnptia.embrapa.br)
Essa possibilidade é especialmente relevante em regiões onde a sucessão familiar se tornou um desafio. A Embrapa já alertou para o envelhecimento da mão de obra em propriedades vitícolas tradicionais e apontou que a permanência da atividade depende de medidas como capacitação de jovens, melhoria da remuneração, agregação de valor, turismo rural e infraestrutura no campo. (embrapa.br)
Indicações geográficas e valorização da origem
A organização dos produtores também contribuiu para valorizar a origem dos vinhos. O Vale dos Vinhedos, área que inclui principalmente Bento Gonçalves e também parcelas de Garibaldi e Monte Belo do Sul, recebeu em 2002 o reconhecimento da primeira Indicação de Procedência do Brasil. Em 2012, a região obteve o registro da primeira Denominação de Origem brasileira para vinhos. (embrapa.br)
As indicações geográficas estabelecem uma relação entre o produto e o território. Elas definem áreas, regras de produção e padrões que precisam ser observados pelos estabelecimentos autorizados a utilizar o nome protegido. Para o consumidor, o selo funciona como uma referência de procedência. Para os produtores, pode representar uma ferramenta de diferenciação e de valorização do trabalho realizado na região.
Embora a imagem do Vale dos Vinhedos esteja frequentemente associada a vinícolas estruturadas e ao enoturismo, a identidade da paisagem também foi construída pelas propriedades familiares, pelos parreirais e pelas comunidades rurais. O reconhecimento geográfico não substitui a tradição local; ele formaliza parte de uma história que foi sendo construída por produtores de diferentes tamanhos.
Entre a tradição e os novos desafios
A produção de vinho em Bento Gonçalves atravessa um período de mudanças. O consumidor passou a buscar informações sobre origem, métodos de produção, variedades de uva e impacto ambiental. Ao mesmo tempo, as famílias enfrentam custos crescentes, exigências de regularização, riscos climáticos e dificuldades para garantir a sucessão da propriedade.
O clima é uma preocupação permanente. Chuvas excessivas, granizo, estiagens e alterações no ciclo das plantas podem comprometer a produtividade e a qualidade da safra. A pesquisa, o planejamento agrícola e o uso de tecnologias de monitoramento ajudam a reduzir riscos, mas não eliminam a dependência das condições naturais.
Outro desafio é manter os jovens no campo. A continuidade da atividade depende de oportunidades de renda, acesso à educação, conectividade, participação na gestão e possibilidade de inovação. Em algumas propriedades, os descendentes assumem a comercialização, a comunicação digital, o turismo e a administração, enquanto os mais velhos permanecem ligados ao cultivo e à elaboração.
Uma tradição que continua em transformação
A história das famílias produtoras de vinho em Bento Gonçalves não é feita apenas de receitas preservadas ou de ferramentas antigas. Ela resulta de sucessivas adaptações: à paisagem da Serra Gaúcha, às mudanças no mercado, à modernização das técnicas, à criação de cooperativas, à pesquisa científica e às novas formas de relacionamento com o consumidor.
O legado dos imigrantes italianos permanece visível nos vinhedos e nas cantinas, mas a vitivinicultura atual é resultado da contribuição de várias gerações e de diferentes instituições. A família segue como unidade central de muitas propriedades, enquanto o setor incorpora profissionalização, rastreabilidade, indicações geográficas e estratégias de turismo rural.
Em Bento Gonçalves, o vinho representa, portanto, mais do que um produto agrícola. Ele reúne memória, trabalho e identidade regional. Cada safra conecta o presente às experiências dos primeiros colonos e, ao mesmo tempo, revela como uma tradição pode sobreviver justamente porque aceita mudar.